Creio que precisávamos de algo assim… a leveza. Eu com minhas malas grandes desajeitadas, revesando o peso entre os braços, com a alça batidamente arrebentada. Você com a mala pequenininha, independente do tempo de estrada, parecendo mais uma bolsa de mão, rindo ao lado, colocando graça nos meus tropeços.
Talvez o mundo seja dessa forma, e servimos bem de metáfora… ou quem sabe é ele que assim nos serve, como saber? Eu que talvez tenha resolvido aprender com você, nada de entulhar a bagagem nas costas, apenas à mão o necessário.
Outra noite tive um sonho. Diante de um ver o que se passava à volta, dizia em palavras claras: tempo de realizar os sonhos. Tudo se silenciava, e vinha a minha própria voz dentro da minha cabeça, sem som algum para o mundo fora: mas quais são os meus sonhos mesmo?
O saber é um não-saber silencioso. Me levantei de forma bruta. Não vejo mal nisso, tenho brutalidades que me salvaram pelo mundo. Mas sabe que uma doçura incontrolável deu de deitar meus olhos sobre as coisas? Talvez seja mesmo chegado o tempo de aposentar as velhas malas, e não usar nenhum jornal de qualquer parte do mundo como agasalho, beleza não vem esmolada, e afeto não se carrega, anda junto.
Então, que seja assim… os sonhos de ontem e as perdas de suas roupagens pequenas lá na cronologia que lhes cabe. Nós aqui, no vagão do agora, com uma barraca para acampar nas descobertas, resgates de natureza a serem feitos, e a única certeza bem pessoana de um universo que se reconstrói. Afinal, pode se perder o tempo do bonde, mas o trilho mantém no caminho as estações e as chegadas.
“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
(Tabacaria; Fernando Pessoa)