Então combinado. Tem um pedaço

de paraíso não conhecido, vai comigo.

E a experiência do inverno nos faltava,

como será germinar girassóis?

Vou cuidar da poupança,

moedas de trocas, notas poéticas,

singularmente guardadas.

Meu tênis velho só calça bem em par

e a estrada do não-sozinho tem sempre sol.

Colocamos a barraca no carro,

quem sabe revezamos volante? Vou na sua trilha,

vem por meu mapa. Paramos

aonde sonhos encontrarem lugar.

Já preparei o par de tênis cativo.

Nada de atolar na lama dessa vez.

Vamos no inverno.

O sol ainda esquenta as sementes adormecidas

para fazer germinar girassóis na primavera seguinte.

Vai querer beirar a orla de novo?

Talvez seja hora de interiorizar.

Eu levo a trilha sonora.

O mapa? A gente pode compor acordes, conforme a qualidade…

Daí, vai ser o mais valioso.

Ao volante… as fotos de uma vida delatam.

Era uma qualidade minha: puxar a carroça,

ir de corpo e alma, mover mundos e fundos. Era.

E ainda é, embora também não mais o seja.

Para aprender sobre malas leves precisei mudar de lugar,

virar o norte ao carona, brincar de batata quente com a bússola.

Porque deixar o coração ao sol a pino queima, racha a pele,

distorce a visibilidade, acidenta as curvas. E andei assim…

mapeando mal o dengo das sombras, fugindo do agasalho do pára-brisa.

Mas cheguei aqui, mesmo que aos trancos e barrancos.

Tem um mapa aí de até aonde quer chegar comigo?

Se quiser, mas só se for assim valioso, acordo as qualidades.

Trouxe um estoque de doce no porta-luvas, quer experimentar?

Se eu lhe ensinar a carregar malas pequenas, você me ensina a ter coragem de saber me guiar?

Tantas caronas já peguei. Tantos ônibus já perdi. Quantos vagões de metrô deixei passar. A confusão com os pedais do carro dá uma certa segurança sobre os caminhos que sigo. Porque o transporte público tem a poesia de sempre passar pelo mesmo lugar. Então não me perco, não caio, não bato. E de alguma forma sempre tenho um ponto certo para chegar.

Tem roupas que não dão para reaproveitar. Eu te ajudo a joga-lás pela janela, você me ajuda a manobrar?

É preciso se perder pra se encontrar. Cair para levantar. Bater para lembrar que se vive.

Preciso urgente de um curso de direção. Rotas-rotinas tão fora de moda.

“Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

(Tabacaria; Fernando Pessoa)

Creio que precisávamos de algo assim… a leveza. Eu com minhas malas grandes desajeitadas, revesando o peso entre os braços, com a alça batidamente arrebentada. Você com a mala pequenininha, independente do tempo de estrada, parecendo mais uma bolsa de mão, rindo ao lado, colocando graça nos meus tropeços.

Talvez o mundo seja dessa forma, e servimos bem de metáfora… ou quem sabe é ele que assim nos serve, como saber? Eu que talvez tenha resolvido aprender com você, nada de entulhar a bagagem nas costas, apenas à mão o necessário.

Outra noite tive um sonho. Diante de um ver o que se passava à volta, dizia em palavras claras: tempo de realizar os sonhos. Tudo se silenciava, e vinha a minha própria voz dentro da minha cabeça, sem som algum para o mundo fora: mas quais são os meus sonhos mesmo?

O saber é um não-saber silencioso. Me levantei de forma bruta. Não vejo mal nisso, tenho brutalidades que me salvaram pelo mundo. Mas sabe que uma doçura incontrolável deu de deitar meus olhos sobre as coisas? Talvez seja mesmo chegado o tempo de aposentar as velhas malas, e não usar nenhum jornal de qualquer parte do mundo como agasalho, beleza não vem esmolada, e afeto não se carrega, anda junto.

Então, que seja assim… os sonhos de ontem e as perdas de suas roupagens pequenas lá na cronologia que lhes cabe. Nós aqui, no vagão do agora,  com uma barraca para acampar nas descobertas, resgates de natureza a serem feitos, e a única certeza bem pessoana de um universo que se reconstrói. Afinal, pode se perder o tempo do bonde, mas o trilho mantém no caminho as estações e as chegadas.

“Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

(Tabacaria; Fernando Pessoa)

Duas irmãs. Duas gerações. Incontáveis possibilidades de escolhas para escrever o caminho. Uma parceria para contrariar os limites e resguardar os sonhos.

 

Maio 2008
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