Não é não, não é ironia, não.

Deixa de acreditar no sarcasmo da vida.

Você liga? Ela também não.

A vida não está nem aí pra você. Ela passa de mansinho.

Feito ele com aquele olhar safado. Mas isso é papo para outra hora.

Deixa de acreditar no sarcasmo da vida, vai.

Você já tem idade suficiente pra saber que só existe recompensa com fé.

Acredita nela pura, só um bucadinho.

Se não der certo, não deu. Grande decepção? Que grande decepção?

O que é tão grande que você não aguenta?

Já te vi carregar dores maiores.

Teus sonhos mesmo já foram mais cruéis quando não desabrocharam naquela madrugada.

É na vida que você tem que acreditar. Vai por mim. É ela que deixa o girassol germinar.

movimentocrisebecken

Esperando no ponto de ônibus com o guarda-chuva aberto, observava a garoa através da iluminação do poste. Esteve hipnotizada por alguns segundos. A chuva caía mansa. Como se de fato não estivesse ali. E recordou todas as enchentes, os pingos grossos, a violência da chuva que passa. Passaria a noite debaixo daquele poste assistindo ao balé de chuva e vento no ar. O dia foi bom. E nem o corpo estava cansado.

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Na casa vazia, a porta vira janela, nada mais sai, nada mais entra. O cadeado foi trancado por fora e o homem que vive lá dentro hoje só respira poeira e mofo. As crianças da rua o chamam de louco. As mulheres da vila lhe doam preces de pena. Ninguém sabe do que vive, do que come. Nem os ratos mais entram através dos buracos. A polícia local não sabe o que faz. O homem perdeu-se faz tempo e todos os dias espreita pelo vidro.

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Penso em abrir um espaço só meu aqui nessa virtualidade.

Estou inteira. Foi o que pensei ontem para lhe escrever.

Estou inteira e eu nem sei porque não estaria. A verdade é que acho que o rei dos mares andou assombrando meu céu durante meu inferno astral. Essa é minha teoria. Pelo menos para explicar como me senti nos dois últimos meses, acredito que você e, provavelmente, só você entenderia essa idéia como metáfora.

Então está aí. Estou inteira. E acho que você ficaria orgulhosa se soubesse que busquei de alguma forma ser fiel aos meus sentimentos. Me assumi. Internamente, com certeza. Externamente, talvez, em gestos. E por ser paciente, insandeci durante um tempo, mas entendi: o amor é pleno no que está em equilíbrio, no que é excesso ou reduzido, não é amor. É alguma palavra que me falha a memória.

Estou inteira. Passei o final de semana me acertando com o rei dos mares. Estou corada. Não tenho mais a cara de vampiro que me obrigava a passar blush antes de sair de casa. Virei peixe no meio do Leme. E aceitei o amor no ponto em que ele estava em equilíbrio, nada além. Mas isso é repressão de sentimentos, diriam alguns. Nunca. Isso é amor. Compreender o que o outro tem a lhe oferecer e amá-lo por ser capaz de se doar esse tanto. Amá-lo na mesma proporção e sempre seguir em busca de novos corações.

Aquele passarinho veio naquele dia chuvoso para isto: contar que depois da tormenta interna, o dia nasceria com o mais belo sol.

Um passarinho desses, que vendem em loja como bichinho de estimação, pousou outro dia no parapeito da minha janela. Eu, que não o tinha visto, escutei seu pio e piei de volta.

Fiu-fiiiu

Achei ser um desses passarinhos de rua, como o que já resgatei uma vez. Mas a curiosidade de quem não tem asas se pôs a olhar para fora, esperando encontrar o dono do pio.

Piu.

O susto me veio ao ver aquele bichinho, com cara de novinho, perdido diante do mundo.

Piu.

Muito nervosa, imaginei ter escapado de alguma gaiola e, por sorte, ao invés de se espatifar no chão, caiu aqui do meu lado com o seu pio.

Piu.

E como quem conhece muito pouco a liberdade, ou talvez só a conheça na lógica e nas argumentações, resolvi resgatar o passarinho de se estrebuchar no chão. Abri bem devagarinho o lado da janela em que ele não estava. E por pensar que era novinho e de que só entendia de gaiola, imaginei que não fosse se assustar, para que eu pudesse pega-lo e dele, cuidar. Mas o pouco de movimento de janela o fez dar um passinho: meu coração veio à boca, achando ser a responsável por passarinho achatado no chão.

Tum-tum. TUM.

Ao invés disso, ele abriu as asinhas e para surpresa de quem não voa, ele foi pousar na árvore mais alta, logo depois de se encontrar no ar com um igualzinho.

Piu + Piu

E enquanto sentia minha mão tremer, entendi pela primeira vez, sem a lógica e a argumentação, que antes de ser um bichinho de estimação, um passarinho é passarinho.

Fiu-fiiiu

Coisas que só quem tem asas saberia me explicar.

Sou prazo, o calendário me sugou. Mais um mês, mais um mês.
E mesmo assim o mundo caberia dentro de mim.
Eu sou um grão, voaria janeeee…la
Tenho estado por demais descuidada
por demais distraída
A brisa fria desses dias cochicham no meu ouvido

Se eu lhe contasse o que anda saindo do meu couro cabeludo
nem eu acreditaria em tantos furos
Tenho estado em dias de coragem

Sumiram os dias do calendário, desaguaram os ponteiros:

sem coração de tic-tac. Ando entre a pulsação e o não pulso,

sem metrônomo de passos, apenas semáforos de ouvidos:

na escuta e na reverência da dança, sem precisar de “e 1 e 2 e 3 e 4″.

- o ritmo é a própria vida…

Não sei que dia foi ontem, nem qual ou como se seguirá,

sei que hoje toca uma sinfonia orquestrada

e a alma pronta aponta para o agora:

não tenho fome, sou água de beber e de nadar.

uma presença. simplesmente uma presença.

uma invasão de presença, uma presença invasora

com forma e nome mas sem corpo

com cheiro e tom e desejo dos dedos:

uma presença.

 

acompanha ao lado, respira no corpo

invade dia sem noite

e me suspira o respiro dela

me tomando.

de mim.

Só por um momento, maninha, queria gritar todos os meus pensamentos.

Não são angústias, não, não fique tensa,

são só meus sentimentos.

Duas irmãs. Duas gerações. Incontáveis possibilidades de escolhas para escrever o caminho. Uma parceria para contrariar os limites e resguardar os sonhos.

 

Novembro 2009
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