Sumiram os dias do calendário, desaguaram os ponteiros:

sem coração de tic-tac. Ando entre a pulsação e o não pulso,

sem metrônomo de passos, apenas semáforos de ouvidos:

na escuta e na reverência da dança, sem precisar de “e 1 e 2 e 3 e 4″.

- o ritmo é a própria vida…

Não sei que dia foi ontem, nem qual ou como se seguirá,

sei que hoje toca uma sinfonia orquestrada

e a alma pronta aponta para o agora:

não tenho fome, sou água de beber e de nadar.

uma presença. simplesmente uma presença.

uma invasão de presença, uma presença invasora

com forma e nome mas sem corpo

com cheiro e tom e desejo dos dedos:

uma presença.

 

acompanha ao lado, respira no corpo

invade dia sem noite

e me suspira o respiro dela

me tomando.

de mim.

Só por um momento, maninha, queria gritar todos os meus pensamentos.

Não são angústias, não, não fique tensa,

são só meus sentimentos.

Ela está apaixonada. É como como se comesse um bombom.

O bombom. A mordida. O paladar. A saliva. O bombom.

O descer pela garganta. Suave, nervoso. O céu mais azul. Fazem três dias que é puro verão.

………………………………………

Ela tem uma mágoa terrível.

Descobriu o saber do não-amor.

Perdeu de vista os passeios. O sol no rosto. É o próprio ser nublado.

Ela é nuvem para o outro. É nuvem-amor. Fez-se o amor nuvem.

……………………………………

Ela caminha sozinha.

É semente de si e desbrava floresta brotando girassóis.

É primavera. É brisa com aquele sentimento de algo para vir.

Girassol em flor vira o rosto para a posição do sol.

Mas minha janela a noite percebe muito a escuridão.

Então sento no sofá e me perco.

Olho aquela gente, penso nas outras gentes. E defino escolhas. Minha forma de viver o amor em liberdade.

Não quero ser igual a eles. Não quero ser por natureza humana diferentemente igual.

Fazemos escolhas o tempo inteiro. Por pessoas, por problemas, por coisas, por fome.

Tenho fome do auto-apreço de algumas gentes. Quase todos se perdem.

Eu me perco a noite. Nessas noites.

Antes, só nelas em que me encontrava. Fiquei velha.

Mentira.

Não acredito na velhice da alma. E não é o corpo que me pede cama.

É a cabeça.

Meu coração aguenta muito mais.

Mas se me dou por vencida e me largo na cama, não adianta, sonho com os mesmos vícios que lido no dia-a-dia.

Não quero ser igual. Não quero ser por natureza humana diferentemente igual.

A vida é amor. De todas as cores.

Na dúvida, respiro e desato.

Certezas duram o único minuto, verdades,

a vida inteira. Nada místico:

a alma sabe. O coração sabe

- amor é liberdade.

Na dúvida, desduvido, aceito, e basta.

Não quero ser a ninguém personagem,

e aonde não posso me ser traio os formatos:

- são perversões infantis todo tipo de carceragem,

carcereiros são prisioneiros de si insatisfeitos,

projetam inimigos nos livres, competem beleza,

vivem de guerra. Sou infiel demais aos formatos. Tenho mais ao que ser.

Prefiro os que tem asas, os de coragem. Mentiras de amor

não me são respeitáveis

- meu campo não é de batalha.

Gananciosos por afeto

Inventam amor

Estão fora do tempo

Sempre

Cada um num timming

Diferente

Tic-tac

Refez-se novamente

e o coração do outro

se despedaçou.

Tive uma vontade súbita de estar comigo mesmo.

Dessas minhas crises que só você conhece.

Quis gritar comigo.

Mandar-me calar.

Ter um ataque histérico na cama.

A gente se convence que precisa do outro,

dessa  forma que nos ensinaram a precisar.

E eu quis demonstrar pânico ao externo,

mas estava em paz.

Eu não entendi nada sobre mim.

Respirei fundo.

Compreendi todos os pré-conceitos,

desejei querer estar comigo mesmo outras vezes

e adormeci sobre a palavra ausência.

Alguma coisa sempre nos faltará.

Ela não crê nas coisas que lhe dizem.

Só nele, ela acreditou.

————————–

Apenas um movimento bêbado de colocar-se ao seu lado foi o suficiente.

Estariam juntos para sempre naquele instante.

————————–

Adormeceu com o corpo em seu peito. Fazia tempo que não cochilava tão facilmente. Não sentia nem mesmo sono. Mas sua alma pesava. Ou o contrário, a alma estaria leve novamente, era o próprio corpo que não aguentava. Amor de estranhos. Estranho amor. Sabia que estava mais uma vez diante de um momento único com ele. Não desejou ter algo mais. Desejou sim uma despedida menos furtiva. Sabia, porém, que era melhor assim, não sentiu dor.

Duas irmãs. Duas gerações. Incontáveis possibilidades de escolhas para escrever o caminho. Uma parceria para contrariar os limites e resguardar os sonhos.

 

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