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Andei vendo corpos esquartejados

Mas eles tinham a coragem de se sustentar

A perna de um era usada por outro

E vi quem emprestasse os olhos,

o coração.

Foram os corpos esquartejados mais tristes e bonitos que vi.

O mundo anda em guerra.

Anda, não?

E na dúvida de carregarem o fuzil ou o companheiro abatido,

há quem se jogue no chão,

há quem não consiga mais se levantar.

Entre o fuzil e o companheiro,

eles cavam, as unhas se enchem de terra,

as larvas sobem pelos braços,

enquanto procuram os sonhos enterrados em covas.

Os corpos esquartejados estão em todos lugares.

Os que se sustentam, os que desistem, os que se põem a cavar.

Fresquinho, faz favor, fresquinho quente

a ponto de aconchegar os aromas, e que não custe a desvida,

tem aí um sonho de amamentar sonhar junto?

Desses que se escolhe açúcares e canelas na hora

e o limite seja apenas a sede? Mas, seu garçom,

nada de requentar a bebida de ontem, e faz favor bem-vindo,

água novinha. Olha esse céu azul amanhecido,

não dá pra começar com vontade com a boca dos sabores vazia.

Fotografar por vezes

me é exercício  de brotar nos olhos poesia,

achar um ângulo do concreto não-cego.

E sempre que me deparo com fotos da vó, ouço a gargalhada,

grudo os olhos na pele a procura das ruginhas

gostosas de fazer carinho na mão de tantos gestos.

A alegria de ser jovem talvez more na eternidade da memória

enraizada na finitude do jardim dos sentidos.

Tenho um tanto sido tocada pelos guardados da minha meninice…

um girassol cresce na barriga das minhas fotografias

- leva minha sementinha contigo.

Um chápeu preto, por favor.

Um chapéu preto acompanhado

do corpo que o segura.

Mais alguma coisa, senhora?

Senhorita. Me vê também os olhos

castanhos do sorriso-simpático.

Algum recheio?

Pouca complicação, doçura: tem frango com catupiry?

Temos sim. Para beber?

Se o café for de hoje…

De sobremesa, alguma coisa?

Um sonho, por favor.

Hoje vi umas fotos antigas.

Daquelas que a gente ainda nem se sabia.

E foi tão bonito olhar aqueles que se conhece

em traços desconhecidos.

Eu pude ver a alegria de ser jovem

da nossa querida avó.

O vestido comprido, estampado

o coque de cabelo. Os braços dados com a amiga.

Vamos levar a máquina fotográfica, certo?

Vamos tirar todas as fotos possíveis.

Deixar para frente, quando tudo já estiver atrás.

A roupa da moda, as esquinas viradas.

Um álbum de fotografia como bagagem pesada.

A nossa única grande mala,

a gente faz durante a viagem.

Pra poder lembrar dos girassóis.

Então combinado. Tem um pedaço

de paraíso não conhecido, vai comigo.

E a experiência do inverno nos faltava,

como será germinar girassóis?

Vou cuidar da poupança,

moedas de trocas, notas poéticas,

singularmente guardadas.

Meu tênis velho só calça bem em par

e a estrada do não-sozinho tem sempre sol.

Colocamos a barraca no carro,

quem sabe revezamos volante? Vou na sua trilha,

vem por meu mapa. Paramos

aonde sonhos encontrarem lugar.

Já preparei o par de tênis cativo.

Nada de atolar na lama dessa vez.

Vamos no inverno.

O sol ainda esquenta as sementes adormecidas

para fazer germinar girassóis na primavera seguinte.

Vai querer beirar a orla de novo?

Talvez seja hora de interiorizar.

Eu levo a trilha sonora.

O mapa? A gente pode compor acordes, conforme a qualidade…

Daí, vai ser o mais valioso.

Ao volante… as fotos de uma vida delatam.

Era uma qualidade minha: puxar a carroça,

ir de corpo e alma, mover mundos e fundos. Era.

E ainda é, embora também não mais o seja.

Para aprender sobre malas leves precisei mudar de lugar,

virar o norte ao carona, brincar de batata quente com a bússola.

Porque deixar o coração ao sol a pino queima, racha a pele,

distorce a visibilidade, acidenta as curvas. E andei assim…

mapeando mal o dengo das sombras, fugindo do agasalho do pára-brisa.

Mas cheguei aqui, mesmo que aos trancos e barrancos.

Tem um mapa aí de até aonde quer chegar comigo?

Se quiser, mas só se for assim valioso, acordo as qualidades.

Trouxe um estoque de doce no porta-luvas, quer experimentar?

Se eu lhe ensinar a carregar malas pequenas, você me ensina a ter coragem de saber me guiar?

Tantas caronas já peguei. Tantos ônibus já perdi. Quantos vagões de metrô deixei passar. A confusão com os pedais do carro dá uma certa segurança sobre os caminhos que sigo. Porque o transporte público tem a poesia de sempre passar pelo mesmo lugar. Então não me perco, não caio, não bato. E de alguma forma sempre tenho um ponto certo para chegar.

Tem roupas que não dão para reaproveitar. Eu te ajudo a joga-lás pela janela, você me ajuda a manobrar?

É preciso se perder pra se encontrar. Cair para levantar. Bater para lembrar que se vive.

Preciso urgente de um curso de direção. Rotas-rotinas tão fora de moda.

“Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

(Tabacaria; Fernando Pessoa)

Duas irmãs. Duas gerações. Incontáveis possibilidades de escolhas para escrever o caminho. Uma parceria para contrariar os limites e resguardar os sonhos.

 

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