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Ela não crê nas coisas que lhe dizem.
Só nele, ela acreditou.
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Apenas um movimento bêbado de colocar-se ao seu lado foi o suficiente.
Estariam juntos para sempre naquele instante.
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Adormeceu com o corpo em seu peito. Fazia tempo que não cochilava tão facilmente. Não sentia nem mesmo sono. Mas sua alma pesava. Ou o contrário, a alma estaria leve novamente, era o próprio corpo que não aguentava. Amor de estranhos. Estranho amor. Sabia que estava mais uma vez diante de um momento único com ele. Não desejou ter algo mais. Desejou sim uma despedida menos furtiva. Sabia, porém, que era melhor assim, não sentiu dor.
Vai corpo descansar.
Vai deitar.
Se o rosto é novo,
o espírito é velho.
O único motivo pra ir tão jovem.
Vai alma surfar.
Não esquece a prancha.
Se aqui embaixo você era onda de mar,
Lá em cima,
as nuvens vão te recepcionar.
Vai rapaz.
Se o corpo não sentiu a dor da queda,
muitos aqui por ti vão chorar.
O que que foi? Que que foi mesmo que eu pedi??
A estrela passou correndo no céu! Eu fechei os
olhos, mas não me lembro do que pedi.
Libertações são permissões de morrer ao passado.
***
O mendigo me olhou tão fundo quando dei meu suco,
que toda minha sede secou.
***
No meu coração tem um tambor que bate forte.
Ô guerreiro que se achega!, na minha tribo só se dança com pureza.
***
Os adultos deram de viver na terra do era uma vez…
E prega-se a liberdade nas vitrines da adultice…
a inversão das utopias é a pior fantasia.
***
Quando a boca abre com a intenção dos venenos
não tem discurso bonito que engane o sentimento.
***
Criança ou não a minha fé,
não acredito nos desertos humanos.
Meu deus é uma criança sábia dançante
- falo por mim, não é Nietzsche psicografando.
O problema dos furacões é serem alheios aos cultivos. Todo dedo de furacão tem um vício triste de destruir os dedos dos cuidados. Mas sabe, essa imagem tão verdadeirinha de mim, moleca serelepe nas alturas, caiu bem feito uma luva para o que fiz com esse último furacão passado: subi, sim, subi leve a cima das nuvens alheias pesadas. Levei no peito meu lar colméia. E o contraste, por aprendizado, foi ótimo: como poderia confundir dedo de furacão com abelhinha rendeira?
Te conto… a beleza que vi no outro, não era de outro, era minha. E é a beleza do olhar, essa mesma, que mais me vale a coragem das alturas quanto mais subo. E mergulhos, profundezas, são coisas de coragens não sozinhas, de duos, de par. Transpasso tudo que se apresenta por algo que me chame os sentidos, você sabe. Por isso te digo, se experimentei o sabor do furacão de dedos alheios, me serviu para ter a certeza de que só me vale o vôo ao encontro da delicadeza.
Deixemos a dureza de lado… Como diria uma sabedoria popular, convém separar o joio do trigo. O bom de quem é concha é não confundir naturezas, não se embaralhar feito areia.
O problema dos furacões é não se deixar abalar. Bem, na verdade, eu acho que para mim é mais a possibilidade de rodar no ar… Mas você não era disso… Era só falar em altura que já estava com aquele rostinho de criança aprontadeira… Então tá bom, eu levo a coragem de virar de cabeça pra baixo e você a de voar muito alto. Não há furacão que sustente… e aí os dedos desenham ondas do mar… não há lugar melhor pra pousar, mergulhar… no fundo, no fundo, no fundo, a gente encontra a paz, dentro de uma concha.
01 de janeiro. Feito criança coloco mel no dedo e saboreio, repetidamente enquanto o pensamento pousa no tato, ou na ausência dele, tentando assentar sentidos. Vi um amor, às vésperas da contagem regressiva, dentro do furacão se dizendo em paz. A cabeça teima, “grão, o amor da gente é como um grão”, mas deixo Caetano, me aquieto com Caetano, “pra que rimar amor e dor?”. Vício cultural que não tenho, mas que de alguma forma tenho de lidar.
Será que as abelhas fazem mel em paz? Ou todo aquele zum zum zum é uma espécie de furacão producente?
Sabe que não acredito, nem gosto de dedos de furacão. E hoje o mel me parece mais duro que rapadura…
É um abismo misterioso tudo que se passa dentro de um ser humano. Pequenas grandes contradições. Vim pra esse mundo sem entender nada disso; deveria já ter aprendido? Por que dói na gente o que não se pode desdoer? Por que a beleza tem que insistir em ser beleza bruta não finalizada? E quando se quebra sem finalizar, fazer o quê?
Hoje não estou em paz. A imagem fixa dos dedos dele escrevendo meu nome não se apagam com o mel em meus dedos. O sabor é de um furacão, não meu.
