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Estou inteira. Foi o que pensei ontem para lhe escrever.
Estou inteira e eu nem sei porque não estaria. A verdade é que acho que o rei dos mares andou assombrando meu céu durante meu inferno astral. Essa é minha teoria. Pelo menos para explicar como me senti nos dois últimos meses, acredito que você e, provavelmente, só você entenderia essa idéia como metáfora.
Então está aí. Estou inteira. E acho que você ficaria orgulhosa se soubesse que busquei de alguma forma ser fiel aos meus sentimentos. Me assumi. Internamente, com certeza. Externamente, talvez, em gestos. E por ser paciente, insandeci durante um tempo, mas entendi: o amor é pleno no que está em equilíbrio, no que é excesso ou reduzido, não é amor. É alguma palavra que me falha a memória.
Estou inteira. Passei o final de semana me acertando com o rei dos mares. Estou corada. Não tenho mais a cara de vampiro que me obrigava a passar blush antes de sair de casa. Virei peixe no meio do Leme. E aceitei o amor no ponto em que ele estava em equilíbrio, nada além. Mas isso é repressão de sentimentos, diriam alguns. Nunca. Isso é amor. Compreender o que o outro tem a lhe oferecer e amá-lo por ser capaz de se doar esse tanto. Amá-lo na mesma proporção e sempre seguir em busca de novos corações.
Aquele passarinho veio naquele dia chuvoso para isto: contar que depois da tormenta interna, o dia nasceria com o mais belo sol.
Um passarinho desses, que vendem em loja como bichinho de estimação, pousou outro dia no parapeito da minha janela. Eu, que não o tinha visto, escutei seu pio e piei de volta.
Fiu-fiiiu
Achei ser um desses passarinhos de rua, como o que já resgatei uma vez. Mas a curiosidade de quem não tem asas se pôs a olhar para fora, esperando encontrar o dono do pio.
Piu.
O susto me veio ao ver aquele bichinho, com cara de novinho, perdido diante do mundo.
Piu.
Muito nervosa, imaginei ter escapado de alguma gaiola e, por sorte, ao invés de se espatifar no chão, caiu aqui do meu lado com o seu pio.
Piu.
E como quem conhece muito pouco a liberdade, ou talvez só a conheça na lógica e nas argumentações, resolvi resgatar o passarinho de se estrebuchar no chão. Abri bem devagarinho o lado da janela em que ele não estava. E por pensar que era novinho e de que só entendia de gaiola, imaginei que não fosse se assustar, para que eu pudesse pega-lo e dele, cuidar. Mas o pouco de movimento de janela o fez dar um passinho: meu coração veio à boca, achando ser a responsável por passarinho achatado no chão.
Tum-tum. TUM.
Ao invés disso, ele abriu as asinhas e para surpresa de quem não voa, ele foi pousar na árvore mais alta, logo depois de se encontrar no ar com um igualzinho.
Piu + Piu
E enquanto sentia minha mão tremer, entendi pela primeira vez, sem a lógica e a argumentação, que antes de ser um bichinho de estimação, um passarinho é passarinho.
Fiu-fiiiu
Coisas que só quem tem asas saberia me explicar.
