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Sumiram os dias do calendário, desaguaram os ponteiros:

sem coração de tic-tac. Ando entre a pulsação e o não pulso,

sem metrônomo de passos, apenas semáforos de ouvidos:

na escuta e na reverência da dança, sem precisar de “e 1 e 2 e 3 e 4″.

- o ritmo é a própria vida…

Não sei que dia foi ontem, nem qual ou como se seguirá,

sei que hoje toca uma sinfonia orquestrada

e a alma pronta aponta para o agora:

não tenho fome, sou água de beber e de nadar.

uma presença. simplesmente uma presença.

uma invasão de presença, uma presença invasora

com forma e nome mas sem corpo

com cheiro e tom e desejo dos dedos:

uma presença.

 

acompanha ao lado, respira no corpo

invade dia sem noite

e me suspira o respiro dela

me tomando.

Na dúvida, respiro e desato.

Certezas duram o único minuto, verdades,

a vida inteira. Nada místico:

a alma sabe. O coração sabe

- amor é liberdade.

Na dúvida, desduvido, aceito, e basta.

Não quero ser a ninguém personagem,

e aonde não posso me ser traio os formatos:

- são perversões infantis todo tipo de carceragem,

carcereiros são prisioneiros de si insatisfeitos,

projetam inimigos nos livres, competem beleza,

vivem de guerra. Sou infiel demais aos formatos. Tenho mais ao que ser.

Prefiro os que tem asas, os de coragem. Mentiras de amor

não me são respeitáveis

- meu campo não é de batalha.

Libertações são permissões de morrer ao passado.

***

O mendigo me olhou tão fundo quando dei meu suco,

que toda minha sede secou.

***

No meu coração tem um tambor que bate forte.

Ô guerreiro que se achega!, na minha tribo só se dança com pureza.

***

Os adultos deram de viver na terra do era uma vez…

E prega-se a liberdade nas vitrines da adultice…

a inversão das utopias é a pior fantasia.

***

Quando a boca abre com a intenção dos venenos

não tem discurso bonito que engane o sentimento.

***

Criança ou não a minha fé,

não acredito nos desertos humanos.

Meu deus é uma criança sábia dançante

- falo por mim, não é Nietzsche psicografando.

O problema dos furacões é serem alheios aos cultivos. Todo dedo de furacão tem um vício triste de destruir os dedos dos cuidados. Mas sabe, essa imagem tão verdadeirinha de mim, moleca serelepe nas alturas, caiu bem feito uma luva para o que fiz com esse último furacão passado: subi, sim, subi leve a cima das nuvens alheias pesadas. Levei no peito meu lar colméia. E o contraste, por aprendizado, foi ótimo: como poderia confundir dedo de furacão com abelhinha rendeira?

Te conto… a beleza que vi no outro, não era de outro, era minha. E é a beleza do olhar, essa mesma, que mais me vale a coragem das alturas quanto mais subo. E mergulhos, profundezas, são coisas de coragens não sozinhas, de duos, de par. Transpasso tudo que se apresenta por algo que me chame os sentidos, você sabe. Por isso te digo, se experimentei o sabor do furacão de dedos alheios, me serviu para ter a certeza de que só me vale o vôo ao encontro da delicadeza.

Deixemos a dureza de lado… Como diria uma sabedoria popular, convém separar o joio do trigo. O  bom de quem é concha é não confundir naturezas, não se embaralhar feito areia.

01 de janeiro. Feito criança coloco mel no dedo e saboreio, repetidamente enquanto o pensamento pousa no tato, ou na ausência dele, tentando assentar sentidos. Vi um amor, às vésperas da contagem regressiva, dentro do furacão se dizendo em paz. A cabeça teima, “grão, o amor da gente é como um grão”, mas deixo Caetano, me aquieto com Caetano, “pra que rimar amor e dor?”. Vício cultural que não tenho, mas que de alguma forma tenho de lidar.

Será que as abelhas fazem mel em paz? Ou todo aquele zum zum zum é uma espécie de furacão producente?

Sabe que não acredito, nem gosto de dedos de furacão. E hoje o mel me parece mais duro que rapadura…

É um abismo misterioso tudo que se passa dentro de um ser humano. Pequenas grandes contradições. Vim pra esse mundo sem entender nada disso; deveria já ter aprendido? Por que dói na gente o que não se pode desdoer? Por que a beleza tem que insistir em ser beleza bruta não finalizada? E quando se quebra sem finalizar, fazer o quê?

Hoje não estou em paz. A imagem fixa dos dedos dele escrevendo meu nome não se apagam com o mel em meus dedos. O sabor é de um furacão, não meu.

Acredito sim:

passarinho de vôo em vôo busca o pouso,

passarinho que acha o pouso voa sem partir.

Ansiedade já foi coisa minha, mas voou de mim.

Deixou um ninho de inquietude para a calmaria,

pousou um ninho de calma em mim. E o quanto for preciso

desaposento mapas, invento rotas…

só a palavra ENCONTRO me pára aqui.

Não sou nada sem palavra, não há coisa mais genuína em minha condução que esse amor liberto nessa coisa palavra. Mas, céus!, como já lhes talhei farpas… porque nada me fere mais que espinhos às minhas palavras. Mas, haja céus!, de que me servem pronomes possessivos?: ilusões fadadas…

Encroei palavras. Ausência de beleza faz coragem virar bicho temeroso. Mas, vixe!, aonde está a ausência de beleza que não nos próprios olhos? E que são os olhos se não um espelho da alma?

Precisei drenar lama. Primeiro o fígado, depois estômago, intestino e até útero… Mas, veja, foi um pulmão espremido que me levou a escoar lamas espinhudas do peito. Não há ilusão mais gordurenta que o medo, que é tristeza de si consigo mesmo.

E foi amor quem salvou, mas amor impalavreável… e cá estou, síndrome boa de lótus… plantada feito a palavra amor sem pauta.

O céu é grande, minha irmã,

e não cabe na janela, talvez apenas

no macio dos sonhos

que renascer algum dimensiona.

 

A cidade é grande, e pequena demais

para a retina. A poesia

escorregadia se esconde.

Mas o açúcar pode ser grande no sangue

do homem que não sabe:

 

que tanto céu não cabe na cidade

de quem não renasce sonhos.

Duas irmãs. Duas gerações. Incontáveis possibilidades de escolhas para escrever o caminho. Uma parceria para contrariar os limites e resguardar os sonhos.

 

Novembro 2009
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