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Estou inteira. Foi o que pensei ontem para lhe escrever.
Estou inteira e eu nem sei porque não estaria. A verdade é que acho que o rei dos mares andou assombrando meu céu durante meu inferno astral. Essa é minha teoria. Pelo menos para explicar como me senti nos dois últimos meses, acredito que você e, provavelmente, só você entenderia essa idéia como metáfora.
Então está aí. Estou inteira. E acho que você ficaria orgulhosa se soubesse que busquei de alguma forma ser fiel aos meus sentimentos. Me assumi. Internamente, com certeza. Externamente, talvez, em gestos. E por ser paciente, insandeci durante um tempo, mas entendi: o amor é pleno no que está em equilíbrio, no que é excesso ou reduzido, não é amor. É alguma palavra que me falha a memória.
Estou inteira. Passei o final de semana me acertando com o rei dos mares. Estou corada. Não tenho mais a cara de vampiro que me obrigava a passar blush antes de sair de casa. Virei peixe no meio do Leme. E aceitei o amor no ponto em que ele estava em equilíbrio, nada além. Mas isso é repressão de sentimentos, diriam alguns. Nunca. Isso é amor. Compreender o que o outro tem a lhe oferecer e amá-lo por ser capaz de se doar esse tanto. Amá-lo na mesma proporção e sempre seguir em busca de novos corações.
Aquele passarinho veio naquele dia chuvoso para isto: contar que depois da tormenta interna, o dia nasceria com o mais belo sol.
Sou prazo, o calendário me sugou. Mais um mês, mais um mês.
E mesmo assim o mundo caberia dentro de mim.
Eu sou um grão, voaria janeeee…la
Tenho estado por demais descuidada
por demais distraída
A brisa fria desses dias cochicham no meu ouvido
Se eu lhe contasse o que anda saindo do meu couro cabeludo
nem eu acreditaria em tantos furos
Tenho estado em dias de coragem
uma presença. simplesmente uma presença.
uma invasão de presença, uma presença invasora
com forma e nome mas sem corpo
com cheiro e tom e desejo dos dedos:
uma presença.
acompanha ao lado, respira no corpo
invade dia sem noite
e me suspira o respiro dela
me tomando.
Só por um momento, maninha, queria gritar todos os meus pensamentos.
Não são angústias, não, não fique tensa,
são só meus sentimentos.
Girassol em flor vira o rosto para a posição do sol.
Mas minha janela a noite percebe muito a escuridão.
Então sento no sofá e me perco.
Olho aquela gente, penso nas outras gentes. E defino escolhas. Minha forma de viver o amor em liberdade.
Não quero ser igual a eles. Não quero ser por natureza humana diferentemente igual.
Fazemos escolhas o tempo inteiro. Por pessoas, por problemas, por coisas, por fome.
Tenho fome do auto-apreço de algumas gentes. Quase todos se perdem.
Eu me perco a noite. Nessas noites.
Antes, só nelas em que me encontrava. Fiquei velha.
Mentira.
Não acredito na velhice da alma. E não é o corpo que me pede cama.
É a cabeça.
Meu coração aguenta muito mais.
Mas se me dou por vencida e me largo na cama, não adianta, sonho com os mesmos vícios que lido no dia-a-dia.
Não quero ser igual. Não quero ser por natureza humana diferentemente igual.
A vida é amor. De todas as cores.
Na dúvida, respiro e desato.
Certezas duram o único minuto, verdades,
a vida inteira. Nada místico:
a alma sabe. O coração sabe
- amor é liberdade.
Na dúvida, desduvido, aceito, e basta.
Não quero ser a ninguém personagem,
e aonde não posso me ser traio os formatos:
- são perversões infantis todo tipo de carceragem,
carcereiros são prisioneiros de si insatisfeitos,
projetam inimigos nos livres, competem beleza,
vivem de guerra. Sou infiel demais aos formatos. Tenho mais ao que ser.
Prefiro os que tem asas, os de coragem. Mentiras de amor
não me são respeitáveis
- meu campo não é de batalha.
Tive uma vontade súbita de estar comigo mesmo.
Dessas minhas crises que só você conhece.
Quis gritar comigo.
Mandar-me calar.
Ter um ataque histérico na cama.
A gente se convence que precisa do outro,
dessa forma que nos ensinaram a precisar.
E eu quis demonstrar pânico ao externo,
mas estava em paz.
Eu não entendi nada sobre mim.
Respirei fundo.
Compreendi todos os pré-conceitos,
desejei querer estar comigo mesmo outras vezes
e adormeci sobre a palavra ausência.
Alguma coisa sempre nos faltará.
O problema dos furacões é serem alheios aos cultivos. Todo dedo de furacão tem um vício triste de destruir os dedos dos cuidados. Mas sabe, essa imagem tão verdadeirinha de mim, moleca serelepe nas alturas, caiu bem feito uma luva para o que fiz com esse último furacão passado: subi, sim, subi leve a cima das nuvens alheias pesadas. Levei no peito meu lar colméia. E o contraste, por aprendizado, foi ótimo: como poderia confundir dedo de furacão com abelhinha rendeira?
Te conto… a beleza que vi no outro, não era de outro, era minha. E é a beleza do olhar, essa mesma, que mais me vale a coragem das alturas quanto mais subo. E mergulhos, profundezas, são coisas de coragens não sozinhas, de duos, de par. Transpasso tudo que se apresenta por algo que me chame os sentidos, você sabe. Por isso te digo, se experimentei o sabor do furacão de dedos alheios, me serviu para ter a certeza de que só me vale o vôo ao encontro da delicadeza.
Deixemos a dureza de lado… Como diria uma sabedoria popular, convém separar o joio do trigo. O bom de quem é concha é não confundir naturezas, não se embaralhar feito areia.
O problema dos furacões é não se deixar abalar. Bem, na verdade, eu acho que para mim é mais a possibilidade de rodar no ar… Mas você não era disso… Era só falar em altura que já estava com aquele rostinho de criança aprontadeira… Então tá bom, eu levo a coragem de virar de cabeça pra baixo e você a de voar muito alto. Não há furacão que sustente… e aí os dedos desenham ondas do mar… não há lugar melhor pra pousar, mergulhar… no fundo, no fundo, no fundo, a gente encontra a paz, dentro de uma concha.
01 de janeiro. Feito criança coloco mel no dedo e saboreio, repetidamente enquanto o pensamento pousa no tato, ou na ausência dele, tentando assentar sentidos. Vi um amor, às vésperas da contagem regressiva, dentro do furacão se dizendo em paz. A cabeça teima, “grão, o amor da gente é como um grão”, mas deixo Caetano, me aquieto com Caetano, “pra que rimar amor e dor?”. Vício cultural que não tenho, mas que de alguma forma tenho de lidar.
Será que as abelhas fazem mel em paz? Ou todo aquele zum zum zum é uma espécie de furacão producente?
Sabe que não acredito, nem gosto de dedos de furacão. E hoje o mel me parece mais duro que rapadura…
É um abismo misterioso tudo que se passa dentro de um ser humano. Pequenas grandes contradições. Vim pra esse mundo sem entender nada disso; deveria já ter aprendido? Por que dói na gente o que não se pode desdoer? Por que a beleza tem que insistir em ser beleza bruta não finalizada? E quando se quebra sem finalizar, fazer o quê?
Hoje não estou em paz. A imagem fixa dos dedos dele escrevendo meu nome não se apagam com o mel em meus dedos. O sabor é de um furacão, não meu.
