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Não é não, não é ironia, não.
Deixa de acreditar no sarcasmo da vida.
Você liga? Ela também não.
A vida não está nem aí pra você. Ela passa de mansinho.
Feito ele com aquele olhar safado. Mas isso é papo para outra hora.
Deixa de acreditar no sarcasmo da vida, vai.
Você já tem idade suficiente pra saber que só existe recompensa com fé.
Acredita nela pura, só um bucadinho.
Se não der certo, não deu. Grande decepção? Que grande decepção?
O que é tão grande que você não aguenta?
Já te vi carregar dores maiores.
Teus sonhos mesmo já foram mais cruéis quando não desabrocharam naquela madrugada.
É na vida que você tem que acreditar. Vai por mim. É ela que deixa o girassol germinar.

Esperando no ponto de ônibus com o guarda-chuva aberto, observava a garoa através da iluminação do poste. Esteve hipnotizada por alguns segundos. A chuva caía mansa. Como se de fato não estivesse ali. E recordou todas as enchentes, os pingos grossos, a violência da chuva que passa. Passaria a noite debaixo daquele poste assistindo ao balé de chuva e vento no ar. O dia foi bom. E nem o corpo estava cansado.
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Na casa vazia, a porta vira janela, nada mais sai, nada mais entra. O cadeado foi trancado por fora e o homem que vive lá dentro hoje só respira poeira e mofo. As crianças da rua o chamam de louco. As mulheres da vila lhe doam preces de pena. Ninguém sabe do que vive, do que come. Nem os ratos mais entram através dos buracos. A polícia local não sabe o que faz. O homem perdeu-se faz tempo e todos os dias espreita pelo vidro.
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Penso em abrir um espaço só meu aqui nessa virtualidade.
Sumiram os dias do calendário, desaguaram os ponteiros:
sem coração de tic-tac. Ando entre a pulsação e o não pulso,
sem metrônomo de passos, apenas semáforos de ouvidos:
na escuta e na reverência da dança, sem precisar de “e 1 e 2 e 3 e 4″.
- o ritmo é a própria vida…
Não sei que dia foi ontem, nem qual ou como se seguirá,
sei que hoje toca uma sinfonia orquestrada
e a alma pronta aponta para o agora:
não tenho fome, sou água de beber e de nadar.
de mim.
Ela está apaixonada. É como como se comesse um bombom.
O bombom. A mordida. O paladar. A saliva. O bombom.
O descer pela garganta. Suave, nervoso. O céu mais azul. Fazem três dias que é puro verão.
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Ela tem uma mágoa terrível.
Descobriu o saber do não-amor.
Perdeu de vista os passeios. O sol no rosto. É o próprio ser nublado.
Ela é nuvem para o outro. É nuvem-amor. Fez-se o amor nuvem.
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Ela caminha sozinha.
É semente de si e desbrava floresta brotando girassóis.
É primavera. É brisa com aquele sentimento de algo para vir.
Gananciosos por afeto
Inventam amor
Estão fora do tempo
Sempre
Cada um num timming
Diferente
Tic-tac
Refez-se novamente
e o coração do outro
se despedaçou.
Ela não crê nas coisas que lhe dizem.
Só nele, ela acreditou.
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Apenas um movimento bêbado de colocar-se ao seu lado foi o suficiente.
Estariam juntos para sempre naquele instante.
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Adormeceu com o corpo em seu peito. Fazia tempo que não cochilava tão facilmente. Não sentia nem mesmo sono. Mas sua alma pesava. Ou o contrário, a alma estaria leve novamente, era o próprio corpo que não aguentava. Amor de estranhos. Estranho amor. Sabia que estava mais uma vez diante de um momento único com ele. Não desejou ter algo mais. Desejou sim uma despedida menos furtiva. Sabia, porém, que era melhor assim, não sentiu dor.
Vai corpo descansar.
Vai deitar.
Se o rosto é novo,
o espírito é velho.
O único motivo pra ir tão jovem.
Vai alma surfar.
Não esquece a prancha.
Se aqui embaixo você era onda de mar,
Lá em cima,
as nuvens vão te recepcionar.
Vai rapaz.
Se o corpo não sentiu a dor da queda,
muitos aqui por ti vão chorar.
O que que foi? Que que foi mesmo que eu pedi??
A estrela passou correndo no céu! Eu fechei os
olhos, mas não me lembro do que pedi.
