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Um passarinho desses, que vendem em loja como bichinho de estimação, pousou outro dia no parapeito da minha janela. Eu, que não o tinha visto, escutei seu pio e piei de volta.

Fiu-fiiiu

Achei ser um desses passarinhos de rua, como o que já resgatei uma vez. Mas a curiosidade de quem não tem asas se pôs a olhar para fora, esperando encontrar o dono do pio.

Piu.

O susto me veio ao ver aquele bichinho, com cara de novinho, perdido diante do mundo.

Piu.

Muito nervosa, imaginei ter escapado de alguma gaiola e, por sorte, ao invés de se espatifar no chão, caiu aqui do meu lado com o seu pio.

Piu.

E como quem conhece muito pouco a liberdade, ou talvez só a conheça na lógica e nas argumentações, resolvi resgatar o passarinho de se estrebuchar no chão. Abri bem devagarinho o lado da janela em que ele não estava. E por pensar que era novinho e de que só entendia de gaiola, imaginei que não fosse se assustar, para que eu pudesse pega-lo e dele, cuidar. Mas o pouco de movimento de janela o fez dar um passinho: meu coração veio à boca, achando ser a responsável por passarinho achatado no chão.

Tum-tum. TUM.

Ao invés disso, ele abriu as asinhas e para surpresa de quem não voa, ele foi pousar na árvore mais alta, logo depois de se encontrar no ar com um igualzinho.

Piu + Piu

E enquanto sentia minha mão tremer, entendi pela primeira vez, sem a lógica e a argumentação, que antes de ser um bichinho de estimação, um passarinho é passarinho.

Fiu-fiiiu

Coisas que só quem tem asas saberia me explicar.

Estão sentados.  Todos sentados e seus afazeres sentados. Estão cansados. Todos cansados e seus afazeres cansados. Num lugar de uma vista inacreditável, se olham para fora é porque só percebem a janela. E se olham para dentro, se confundem com seus afazeres sentados e cansados. Então me leva para algum lugar longe daqui, onde o verde seja só verde e o amarelo reflita em tudo. Porque eu tenho ficado sentada e tão cansada e chego a tremer de medo em pensar que posso só vir a perceber a janela.

Sentei-me.

- Então, qual seu plano B?

- Oi? Eu te conheço?

- Conhece não. Mas sabe o que é, resolvi sair pra respirar e acabei sentado aqui. E aí me deu uma coisa de pensar o que eu faria se tudo começasse a dar errado… Então, qual seu plano B?
- Eu que sei? Eu não tenho nem o plano A. Isso parece pergunta de quem vai assaltar um banco.
- Esse poderia ser meu plano B… Como é que você consegue viver semplanejar? Você não tem sonhos?
- Acho que nunca cheguei a projetá-los na vida, talvez nunca os tenha pensado como primeira opção.
- Seria fantástico se fosse assim: nada deu certo, agora finalmente meus sonhos se realizarão.

- Você é contraditório.

- Só estou repetindo o que falou…

- Mas o que falei não é nada fantástico, pelo contrário, talvez isso me transforme numa pessoa um pouco mais triste.

- Porque isso agora?
- Veja: primeiro eu faço as coisas que acho que devo fazer, depois faço as coisas que acho que quero fazer.
- Mas isso não seria um plano? Talvez lhe falte a consciência de que faz tudo o que gostaria, ou tudo que está ao seu alcance.
- É uma perspectiva.
- A vida é um saco cheio de perspectivas. Se eu lhe dissesse que sempre fiz o que tinha certeza que gostaria de fazer, você não me perguntaria porque estou à beira do precipício perguntando ao eco qual seu plano B?

- Já disse que você é contraditório.

- É, e também me disse que eu sou um pouco mais triste. Talvez seu plano B, seja meu plano A.

- Talvez a gente tenha sempre que se buscar.

Duas irmãs. Duas gerações. Incontáveis possibilidades de escolhas para escrever o caminho. Uma parceria para contrariar os limites e resguardar os sonhos.

 

Novembro 2009
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