Entra o poeta no vagão

derrama espaço, recita verso

implode com a coragem os próprios pulmões.

Palavra árida essa que ressoa

e questiona a sociedade dos desafetos,

das minorias no contraverso

dele inquieto, inquietação.

Aplaude eu de um lado e

outro de outro lado cheio de instrumentos no chão.

Todo um vagão quieto

e três incansáveis na contramão.

Anúncios

E quando não somos massa

sem ossos de estrutura qualquer

sem pele que contorne a imagem:

dissolução.

E retornamos a massa

arroz tempero feijão

e ressoamos o encontro das partes

sem precisarmos sermos nada

sendo tudo na integração.

(Da ilusão da cadeira)

Quando somos massa
Somos nada
Coisa única
Sem cor
Sem profissão
Quando somos massa
Sem identidades
Sem saudades
Somos espaços ocupados
Funções
Quando somos massa
Dinheiro
Trabalho
Não muda a classe
Massa
Farinha, ovo e água
Ilusão de ser cadeira marcando lugar
Ilusão de ocupar
Ilusão de vazios
Quando somos massa
Ja vi sermos voz
Canto e flor
Esperança
Samba
Mulheres por elas
Quando somos massa
Somos tudo
Esperança
Unidade
Força 

Há espaço, hoje há espaço suficiente para que a asa se abra. Aquele velho cansaço, militante de velhos personagens, caiu por terra destronado. A melhor parte da borboleta é sua simplicidade para a leveza. Singelezas. Em tempos de delicadeza o gesto, o ato, o lançar-se sem calçado pede passagem. Não se para mais o trem bala, e sem sequer rito de passagem, é o amor quem abre. Sem reter ou antever há o vôo, gentil consigo mesmo, o vôo pelo vôo, a entrega, a coragem. 

A borboleta entrou sala a dentro. Surgiu como todas as coisas fantásticas. Era uma borboletinha preta, nada bonita. Batia asas desorientadamente, causando verdadeiro caos entre alunos. As meninas escandalosas gritavam de medo do ser mágico-estranho. Os meninos em revoada queriam dar fim ao inseto. Ana Carolina, de lenço na cabeça, olhos espertos e mais sensível a vida alheia, grita: “Professora, não deixa matarem ela!”.
Das coisas que aprendi com as crianças desde o primeiro dia em sala, é que de alguma maneira a gente age. E eu que nunca tinha pego um inseto com a mão antes, soltei a borboleta pela janela.

Talvez o amor

seja

um sideral tabuleiro

de liga-pontos

aonde quando um vence

todos ganham.

Ou talvez o amor

seja a liga de um tabuleiro crescendo bolo

e nós sejamos

farinhas, açúcares, ovos…

todos juntos.

O que dá a liga e o que liga,

isso!,

talvez seja isso o amor

sem tabuleiro, sem fôrma, sem receita ou jogo

ou um tabuleiro sem forma onde tudo é possível

e nós, o bolo sendo mexido, micrúsculos pontinhos se unindo.

Ontem a tarde pensei em você.
Estava na praia de Ipanema quando o sol começou a se pôr.
Andei com alguns amigos até o Arpoador.
E lá com uma legião de fãs do sol, aplaudi o mar engolir o astro.
A calçada e a areia estavam tomadas de gente olhando pro mesmo ponto grande amarelo no horizonte.
Os cachorros olhavam na mesma direção que seus donos.
Havia tipos de todos os tipos de gente.
Então conclui que algum tipo de amor ligava todos ali.
E pensei em você.

A beleza das bolhas de sabão está na alegria da criança

de vê-las sugir e estourá-las. Estouremos bolhas,

há uma sinfonia linda lá fora te convidando a participar.

Cada acorde tentado, cada improviso, cada desafino atrás do ritmo

é melhor que uma grande e genial bolha que a qualquer instante pode estourar:

porque as coisas bobas são as simples, e nas simples o exercício da vida,

como o ensaio de uma grande orquestra. O tempo do aprender o estar em si

é a sustentável leveza. O tempo do peso não rege ali. Um bom maestro

é cheio de grandes e pequenas alegrias simples, de delicadezas, de respeitos,

ele sabe: a música vem do confluir das essências, e cada um tem o seu tempo

de ser feliz em seu instrumento e vibrar como conjunto.

Não há desemprego nem rotina no tom do amor.

Enquanto uma memória for triste: ela ainda não é inteiramente memória.

Memórias são para os arquivos, não para o tempo presente.

Passei meu tempo de carro branco amando os caminhos do vinho

simplesmente porque no branco tudo era tingido de desamor

e eu era presa ao tempo em que achava que era livre:

cultivei no branco o vinho e no vinho a mentira,

embora no vinho, no vôo cego, tenha melhor tentado ser feliz

e o branco era assobio de fins de ciclos, que eu tentei fugir.

– Desapegue-se das memórias, são armadilhas para o não-seguir.

Hoje em meu carro preto me tateio arco-íris,

nele sou simples, e encontro um par em mim:

a porta do carona só verdadeiramente se abre quando a do motorista está completa,

e não há tristeza em vôos solos, são pequenas mortes, pequenas alforrias

que nos ensinam o livre: a alegria é estar na estrada, ser a estrada, compor a estrada:

a memória jamais servirá de carro.

Quando quiser vir comigo, vem no meu arco-íris. Tem caminhos infinitos até o mar.

Vim aqui te contar coisas bobas.
Daquelas que a gente conta no dia-a-dia.
Há uns meses um amigo sentou na minha frente, comendo um cachorro quente, e me perguntou como foi meu dia.
Aquilo me soou acolhedor e me dei conta que não era o tipo de conversa que desenvolvi em casa.
Tenho tido trocas permanentes que me questionam ao final do dia, ou mesmo na parte da tarde, a mesma coisa.
Foram minhas conquistas. Todos eles.
E hoje me dei conta que não tenho contado a você como anda minha vida, você preocupada comigo enquanto almoçava, e eu ria por resposta a todas aquelas preocupações.
Tenho tido dias simples, às vezes parece que voam.
Fiz novos, bons, amigos. Que já são velhos de certa forma.
E mantive os velhos também. Uma das qualidades que considero em mim.
Mas queria que você viesse a conhecer todos. Os velhos (de novo) e os novos.
Sei que você procura a essência deles só pra me proteger.
Nesses dias, me preencho de todas as formas possíveis com música.
Pode ser dançando, cantando ou treinando tocar.
É o movimento da música que me faz feliz.
A vibração.
Coisa pouco-grande que só você entenderia.
Vim aqui te contar coisas bobas.
São elas que dão sentido a todas as importantes.
Gosto da rotina e odeio ela ao mesmo tempo.
Conclusão que cheguei só desempregada.
Porque fiz, no desemprego, uma rotina.
Então tenho ao mesmo tempo vontade de fugir e de continuar os hábitos.
E é essa dualidade que tenho vivido.
Na maior parte do tempo me sinto do mundo.
Mas estou tão presa a todos.
Não queria dar o peso que dou a eles.
Mas foi sempre com o peso que aprendi a leveza. E são eles-você que me fazem ser do mundo.
Eu sei que você também tem coisas bobas pra me contar, por isso:
“como foi seu dia?”

Duas irmãs. Duas gerações. Incontáveis possibilidades de escolhas para escrever o caminho. Uma parceria para contrariar os limites e resguardar os sonhos.
janeiro 2018
S T Q Q S S D
« dez    
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  

Blog Stats

  • 4,298 hits